'RATATOUILLE – RATATUI'
de Brad Bird
com Patton Oswalt e Lou Romano (vozes)
(2007 Disney Pixar)
O rato Remy sonha em ser chefe de cozinha contra a vontade da sua família e o problema de ser um rato numa profissão anti-ratos. Quando o destino coloca Remy na cidade de Paris, ele encontra-se situado por baixo do restaurante do seu herói da culinária, Auguste Gusteau. Apesar do perigo der ser um convidado indesejado na cozinha num dos restaurantes mais exclusivos de Paris, Remy cria uma parceria com Linguini, o rapaz do lixo, que descobre os talentos de Remy. Esta parceria gera uma reviravolta no mundo da culinária de Paris. Uma comédia de animação do realizador norte-americano Brad Bird, de 50 anos, autor de 'The Iron Giant – O Gigante de Ferro' (1999) e 'The Incredibles – Os Super-Heróis' (2004).
"A nearly flawless piece of popular art, as well as one of the most persuasive portraits of an artist ever committed to film. It provides the kind of deep, transporting pleasure, at once simple and sophisticated, that movies at their best have always promised."
The New York Times
3 comentários:
FMM SINES 2007 – FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO
Sexta, 27
A pior noite de Sines em muitos anos
Estrelas caídas em desgraça, público mais interessado em festa a todo o custo do que na música, músicos mais interessados em demonstrar o seu virtuosismo que em fazer música: retrato da pior noite de Sines em muito, muito tempo.
Eram mais de seis da manhã, alvorada do que viria a ser uma bela manhã de Julho, e a música ouvira-se na Avenida da Praia, em Sines, a noite toda. Ainda se ouvia: DJ Guterres oferecia acordeões vindos de Cabo Verde, passava canções dos Ferro Gaita, e os brancos, os brancos dançavam tentando aproximar-se da imagem que têm dos pretos a dançar. E de repente um pequeno amontoado de pessoas (uma dezena, vá lá) junta-se do lado direito do palco, mesmo junto à praia, e aponta para a orla do mar. Olhava-se e lá estava ele (fosse ele quem fosse), o mais woodstockiano dos melómanos de Sines, dançando nu, com os braços lançados ao alto, às voltas sobre um eixo imaginário. Uma das moças salta então para a praia, corre ao longo de todo o areal, e, quando chega à beira-mar e à beira do moço, dança em torno dele imitando-lhe os trejeitos, e depois, satisfeita com o seu acto de liberdade, volta para junto dos amigos que a acolhem entre risos.
Foi, na prática, assim a noite toda, com a festa, ou a vontade de fazer festa, a sobrepor-se à música. Não por acaso, foi quando um Rachid Taha, visivelmente embriagado, subiu ao palco do Castelo já depois da meia-noite e meia, que a noite finalmente arrancou. Taha, argelino a que o paternalismo ocidental atribui a qualidade de cantar a diáspora argelina, pareceu sempre menos preocupado com a diáspora do seu povo do que em abrir os braços à boca do palco como um semi-deus embevecido dos seus poderes (ou em tropeçar no palco), mas isso pouco importou face à alegria com que o público recebeu a sua música de feira.
Resumidamente, tudo se passou assim: Taha, que tem uma longa carreira atrás de si, e estava incumbido de fechar as hostilidades no palco principal, apareceu de fato azul, camisa violeta, gravata amarela e sapatos brancos de bico, cigarro a pender da mão e olhar esgazeado. Parecia, por vezes, um Nick Cave aciganado com propensão para o lado errado do kitsh.
A seu lado uma banda ligeiramente rock, com bateria, teclas, guitarra eléctrica, e um tocador de oud (a parte das músicas do mundo deve-se à presença do oud) que revezava o líder cada vez que este se esquecia de cantar. Metade da música vivia das guitarras, a outra partia de motivos melódicos árabes e adicionava uma sincopa - fórmula que invariavelmente levou ao delírio os presentes, que interpretavam esse som (uma espécie de arabismo ocidentalizado à força, de exótico para - neste caso - português ver) de forma curiosa, ainda que errónea: as meninas, em particular, executavam periclitantes tentativas de imitar uma qualquer dança do ventre. Ninguém as avisou da ligeira confusão geográfica a que se entregavam, e não as avisaram porque, pelo menos os rapazes, pareciam aprovar a dança. Quando no final do concerto um miúdo dizia aos amigos que "estes gajos da Al-Qaeda fazem boa música" algumas dúvidas acerca do real interesse do público no multiculturalismo adensaram-se.
Antes a noite tinha sido, mais coisa menos coisa, decadente. Hamilton de Holanda, brasileiro considerado o maior bandoneonista do mundo, teve o mérito de tornar a quente noite fria. Bastos foram os momentos em que a música que produziu (mansa, acetinada, certinha) parecia o típico som de fundo para documentário da RTP2 em tarde de domingo nos anos 80.
Muito melhor foi o concerto da World Saxophone Quartet, quando conseguiam conter a tendência do guitarrista para os solos gratuitos, e do baterista para a demonstração de poder (gratuita). Quando funcionaram como um todo percorreram o mundo do funk e da soul orquestrada com enorme facilidade e, por vezes, encanto, graças, acima de tudo, ao quarteto de sopros. Os metais, aliás, também eram a principal atracção da enorme banda italiana La Etruria Criminale Banda, que tanto soava a banda-sonora de filme de Kusturika como se atirava a revisão da canção italiana para formato big band, como faziam um rocksteady demoníaco. O público reagia com especial intensidade aquando dos momentos-Kusturika, que, curiosamente, foram musicalmente os menos interessantes.
No meio deste dia de azaradas actuações, o melhor foram os nomes pequenos: à tarde o neo-zelandês Aronas, ao piano e acolitado por baixo, bateria e percussões nativas, desfez melodias bluesy insuflando-lhes poliritmias cheias de força. Uma pequena surpresa, tal como o colectivo de MCs organizado por DJ Guterres, incluindo um trio feminino que não temeu incluir os mais temidos palavrões em raps de amor. Foi um belo momento que infelizmente muitos rapazes aproveitaram para gritarem para o palco comentários de uma masculinidade duvidosa.
in 'Público'
CR
KPACHOдÁP (KRASNODAR)
Meus caros amigos e consórcios e benfiquistas convictos. Por falar nisso, mais vale mudar de assunto, a dias fui a net so pra saber novidades e dei logo com a noticia da venda do Simão Ui.
Adiante, venho por este meio que depois de um mês à experiência no futebol russo, encontro-me de regresso à capital lusa na próxima sexta, 03 por volta ds 19h10.
Gostaria desde já de vos convidar para além de me irem buscar, mas também para um jantar fraterno de confraternizacao, perdoa-me a redundancia CR Viddy. Submeto-me, portanto, à vossa distinta consideração.
Eu estou bem, óptimo, aliás, perdoem-me a falta de notícias, mas não tem calhado vir à net, só vim aqui duas ou três vezes para mandar emails ao Consulado português de Moscovo.
Beijos e abraços, seria bom se vos pudesse ver na sexta.
JORGENSEN
FMM SINES 2007 – FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO
Sábado, 28
Sines voltou a ser mágica
Um dia preenchido com músicos há muito emigrados e que fez da música um cruzamento das culturas - foi, igualmente, o melhor dos últimos dias. Aquele em que a magia voltou a Sines e rebentou com o castelo.
E ao último dia o pequeno e desejado milagre aconteceu e deu-se um daqueles raros momentos em que as cabeças se inclinam todas para o mesmo lado, os corpos dançam ao mesmo compasso e a bebida escorrega alegremente por todas as gargantas adentro. Num crescendo imparável a última noite da nona edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines começou com a estranheza de um cabaré rural plantado a meio caminho entre os EUA e a Suíça, começou a entrar em velocidade máxima com o hip-hop étnico de K"Naan e explodiu de vez, graças a uma carroça decadente e cigana chamada Gogol Bordello.
Quando o fogo-de-artifício surgiu de trás do palco para interromper uma canção dos Bordello (que continuaram a sua algazarra como se tocassem todos os dias com morteiros nas costas) e encher o céu de Sines num espectáculo vertiginoso, sabia-se: tinha sido uma noite extraordinária, daquelas que fazem o mais surdo crer no poder mágico dessa prenda dos deuses chamada música. E Sines, como todos desejavam, acabava em glória. Uma vez mais.
Muita gente tinha dito que se os nomes fortes do festival, que este ano durou nove dias, se concentrassem todos nos últimos quatro dias, alguém poderia morrer de ataque cardíaco à conta da intensidade. Talvez tenham razão, mas a não concentração dos nomes fortes nos últimos dias provocou uma noite fraca, fraquinha, como a de sexta-feira. Sábado tinha, portanto, de redimir a noite anterior e restituir a capacidade de acreditar que em Sines, em qualquer concerto, pode haver magia.
Tome-se o caso dos Gogol Bordello, banda itinerante de oito músicos, com acordeão e violino à proa de canções que devem tanto à música dos Balcãs como ao punk ou ao reggae, que fecharam o palco principal.
Em disco são uma banda simpática, ao vivo o espírito cigano toma-lhes conta da alma, apodera-se das ancas e a pandilha parte para um serviço de destruição das calorias em excesso. Junte-se a isto o calor, o preço barato da cerveja e o espírito festivo dos presentes (quase sete mil, anteontem) e tem-se, como solução para a equação, uma explosão de energia de grau seis na escala de Richter, um terramoto de febres.
Podia-se desconfiar, à tarde, que a coisa iria ser diferente do dia anterior. Às 19h30, na Avenida da Praia, os bretões Norkst trouxeram a verdadeira música bretã, com todas as suas dissonâncias e uso da atonalidade, fazendo improváveis combinações de banjos com alaúdes, harpas e contrabaixos, acordeão e violino e ainda um sem-número de sopros.
Curiosamente, as melodias de voz, melismáticas e desconfortáveis, aproximavam-se por vezes dos exercícios com música mediterrânica que o nosso Janita fez durante anos - e não seria descabido imaginá-lo ali. A principal característica dos Norkst, no entanto, é a sua capacidade hipnótica, por via das repetições e uso dos bordões.
A abrir a noite no castelo, Erika Stucky, suíça-americana, foi a maior surpresa dos últimos dias de festival: uniu o blues e o yodeling, usou castanholas e melódicas como instrumentos para melodias mínimas, por cima das quais fazia a desconstrução vocal, excessiva e delirante de clássicos (como This boots were made for walkin", celebrizado na voz de Nancy Sinatra), fez música com conchas, didgeridoos e trombones, fez humor, cantou em alemão, dividiu-se em duas e discutiu consigo mesma criando uma espécie de cabaré rural e surreal, algures entre a experimentação de Laurie Anderson e o humor de um Buster Keaton com tranças tirolesas. Magnífico.
Sábado foi, portanto, a noite dos exilados: se Stucky paira entre a Suíça e os EUA sem se decidir a qual pertence, os Gogol Bordello já nem devem saber que país consta dos seus BI. Mas K"Naan sabe: nasceu na Somália e foi para o Canadá. Como tal faz hip-hop, mas hip-hop que não é propriamente sofisticado: a percussão é acústica e rude, há uma guitarra acústica para criar melodias, enquanto ele dispara versos tanto em somali como em inglês. Se em inglês é muito bom (e com um óptimo sentido de groove), na sua língua nativa é, como dizia um miúdo, "do além", sujo, por limar, mas simultaneamente oleado e frenético. Coisa espantosa, ver sete mil portugueses entregues a hip-hop africano.
O que se seguiu depois dos Bordello, na Avenida da Praia, já era do reino da total descompressão. O alemão Uwe Schmidt, transformado em Señor Coconut, trouxe uma mini big band, com metais vários, vibrafone, percussões e laptop, para fazer versões latinas de música ocidental (dos Kraftwerk a Sade). Não era uma procura da real música latina, antes um baile de humor: ver alemães a gritar frases de ordem em espanhol ("Si, si, que bonito", "Bamos a bailar", "Mira, que bueno"), enquanto se desconstrói o clássico Smoke on the water numa salsa leve, é, no mínimo, hilariante - e é dessa tensão, desse "erro" de tradução que nasce a graça do projecto.
A extraordinária noite de anteontem teve, aliás, exactamente esse mérito - o de juntar gente que, nascida num sítio e vivendo noutro, não teve medo de unir culturas opostas e fazer do "erro de tradução" a sua virtude. Sábado venceram os exilados - o que é uma forma de dizer que venceu a tolerância e a celebração dessa coisa extraordinária que é a diferença.
in 'Público'
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