”Aaaaaaaaaah e partiu-se no chão, eu também me parti toda. O tecto veio abaixo, o fundo trepou ao meu encontro. Parti a coluna, parti o pescoço, parti a cara, parti a cabeça. A caixa torácica que envolvia o meu coração partiu-se em duas e o meu coração saiu cá para fora. Acho que era o meu coração. Saltou-me do peito e entalou-se-me na boca. Foi assim que tudo começou. Pela primeira vez (demasiado tarde), descobri o sabor do meu coração. Tenho sentido saudades de ter um coração. Saudades do barulho que costumava fazer, da maneira como punha o calor em circulação, da maneira como me mantinha acordada. Vou de quarto em quarto, aqui, e vejo camas desfeitas depois de amor e de sono, e a seguir camas feitas de lavado e prontas, novamente à espera que corpos se enfiem dentro delas; lençóis engomados e dobrados para trás, camas de boca aberta a dizerem bem-vindo, despacha-te, entra, o sono está a chegar. As camas são tão convidativas. Abrem a boca de uma ponta à outra do hotel, todas as noites, para os corpos que se enfiam dentro delas, uns com os outros ou sozinhos; todas as pessoas com os seus corações a pulsar, a ocuparem espaços deixados vazios por outras pessoas, que partiram sabe-se lá para onde, que há apenas umas horas aqueciam esses mesmos espaços. Tenho andado a tentar lembrar-me de como era dormir sabendo que se ia acordar. Tenho andado a observá-los com toda a atenção, os corpos, e a ver o que os seus corações os deixam fazer. Tenho andado a vê-los dormir, depois; tenho-me sentado aos pés de camas satisfeitas, camas insatisfeitas, camas que ressonam, indiferentes, insones, camas de pessoas que não sentiram presença alguma ali, ninguém no quarto a não ser elas. Despacha-te. O sono está a chegar. As cores estão-se a esbater.”
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HOTEL MUNDO
”Aaaaaaaaaah e partiu-se no chão, eu também me parti toda. O tecto veio abaixo, o fundo trepou ao meu encontro. Parti a coluna, parti o pescoço, parti a cara, parti a cabeça. A caixa torácica que envolvia o meu coração partiu-se em duas e o meu coração saiu cá para fora. Acho que era o meu coração. Saltou-me do peito e entalou-se-me na boca. Foi assim que tudo começou. Pela primeira vez (demasiado tarde), descobri o sabor do meu coração.
Tenho sentido saudades de ter um coração. Saudades do barulho que costumava fazer, da maneira como punha o calor em circulação, da maneira como me mantinha acordada. Vou de quarto em quarto, aqui, e vejo camas desfeitas depois de amor e de sono, e a seguir camas feitas de lavado e prontas, novamente à espera que corpos se enfiem dentro delas; lençóis engomados e dobrados para trás, camas de boca aberta a dizerem bem-vindo, despacha-te, entra, o sono está a chegar. As camas são tão convidativas. Abrem a boca de uma ponta à outra do hotel, todas as noites, para os corpos que se enfiam dentro delas, uns com os outros ou sozinhos; todas as pessoas com os seus corações a pulsar, a ocuparem espaços deixados vazios por outras pessoas, que partiram sabe-se lá para onde, que há apenas umas horas aqueciam esses mesmos espaços.
Tenho andado a tentar lembrar-me de como era dormir sabendo que se ia acordar. Tenho andado a observá-los com toda a atenção, os corpos, e a ver o que os seus corações os deixam fazer. Tenho andado a vê-los dormir, depois; tenho-me sentado aos pés de camas satisfeitas, camas insatisfeitas, camas que ressonam, indiferentes, insones, camas de pessoas que não sentiram presença alguma ali, ninguém no quarto a não ser elas.
Despacha-te. O sono está a chegar. As cores estão-se a esbater.”
CR
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